Como um dos menores departamentos do Executivo se tornou numa das faces mais visíveis do Governo — e o que isso revela sobre os restantes ministérios. Há uma pergunta que começa a circular nos bastidores da política angolana, nos corredores das redacções e nas conversas de quem acompanha de perto o funcionamento do Estado: como é possível que o Ministério do Turismo — sem as receitas do petróleo, sem o peso histórico das Finanças, sem o músculo político da Energia — se tenha transformado num dos departamentos governamentais mais visíveis e mais presentes no debate público dos últimos anos? A questão não é um elogio disfarçado. É uma provocação legítima. E a resposta talvez diga mais sobre o que os outros ministérios não fazem do que sobre aquilo que o Turismo faz de extraordinário. O ano em que o turismo deixou de ser uma promessa Em Janeiro de 2026, durante a abertura do 1.º Conselho Consultivo do Ministério do Turismo, o ministro Márcio Daniel apresentou um número que surpreendeu: Angola registou, em 2025, um crescimento de 30% nas chegadas de turistas internacionais — 223 mil visitantes, superando pela primeira vez os níveis pré-pandemia e invertendo uma tendência de queda que se arrastava desde 2014. O Barómetro da ONU Turismo confirmou os dados e colocou Angola na primeira posição africana em crescimento turístico e na quarta posição a nível mundial. Para um país que durante décadas viveu à margem dos roteiros internacionais, os números representam uma ruptura. O emprego no sector cresceu mais de 100% no período recente. Por cada mil turistas adicionais, foram criados 10,6 novos postos de trabalho. A facturação global do sector ascendeu a 479,1 mil milhões de kwanzas — cerca de 526 milhões de euros — com a hotelaria a responder por quase metade das receitas. No Angola Investment Summit 2026, realizado em Luanda em Junho, o Presidente João Lourenço sublinhou que o turismo em Angola é “uma aposta consolidada”. O ministro Márcio Daniel foi mais directo: “Até aqui, consolidámos a promoção. O próximo passo é transformar o turismo num activo financiável, investível, bancável.” O PLANATUR e a aposta de vários milhares de milhões A visibilidade do Ministério do Turismo não é apenas comunicação. Tem, pelo menos em parte, um alicerce estratégico concreto. O Plano Nacional de Fomento ao Turismo — PLANATUR — prevê investimentos superiores a 2,5 biliões de kwanzas (cerca de 3 mil milhões de dólares) em projectos de infra-estrutura e apoio ao sector privado. Em paralelo, são disponibilizados anualmente cerca de 20 mil milhões de kwanzas para apoio directo a operadores turísticos, simplificação de licenciamentos e redução de procedimentos administrativos. O PLANATUR está articulado com a Estratégia de Longo Prazo 2050 e com o Plano de Desenvolvimento Nacional 2023–2027. A meta é que o sector represente 1,9% do PIB e gere 50 mil empregos directos até 2027. Os projectos integrados de Cabo Ledo, do Cuanza-Sul e do Namibe contam já com verbas aprovadas para construção. A Hilton manifestou interesse em expandir a sua presença no país. Tudo isto acontece num momento em que o turismo mundial vive um dos seus períodos mais intensos. Em 2025, o sector ultrapassou 1,5 mil milhões de viajantes internacionais e movimentou cerca de 11,7 biliões de dólares na economia global. Angola soube posicionar-se nessa corrida quando muitos outros países africanos ainda procuravam as palavras certas. O ministério que aprendeu a comunicar Existe, porém, uma dimensão desta história que não está nos relatórios nem nos comunicados de imprensa: o Ministério do Turismo aprendeu a ocupar espaço público de forma consistente. Feiras internacionais, fóruns de investimento, campanhas digitais, iniciativas de promoção, parcerias culturais e desportivas, presença em eventos como a ITB Berlin e o Angola Investment Summit — o ministério criou uma cadência de aparições que outros departamentos governamentais não conseguem replicar. O Governo aprovou recentemente uma estratégia nacional para transformar eventos culturais e desportivos em oportunidades de desenvolvimento turístico. Curiosamente, uma agenda que poderia ser partilhada por outras áreas do Executivo acabou por ser liderada pelo Turismo. Esta capacidade de comunicar não é trivial. Percepção é poder e, num país onde muitos ministérios executam projectos relevantes sem visibilidade pública, o Turismo criou uma vantagem diferenciada: está sempre em cena. O nome que aparece no centro de quase tudo é o de Márcio Daniel, um ministro que percebeu, antes de muitos colegas de Governo, que trabalhar e comunicar deixaram de ser actividades independentes e que a visibilidade institucional faz parte da própria governação. Num executivo onde o silêncio é frequentemente confundido com trabalho, a presença constante do Turismo nos meios de comunicação acabou por criar uma percepção de dinamismo que é, ao mesmo tempo, parcialmente real e parcialmente construída. Será apenas uma questão de comunicação? Naturalmente, a visibilidade não substitui resultados. O crescimento do turismo continua a partir de uma base relativamente baixa quando comparado com outros países africanos. O peso do sector na economia nacional permanece modesto e muitos desafios estruturais — conectividade aérea, vistos, infra-estruturas, formação e financiamento — continuam por resolver. É por isso que a pergunta central desta análise não é se o Turismo é o melhor ministério de Angola. A pergunta é mais desconfortável: porque é que um ministério relativamente pequeno conseguiu ocupar um espaço que departamentos com orçamentos e responsabilidades muito superiores parecem ter abandonado? A pergunta que ninguém quer responder Angola tem um conjunto alargado de ministérios. Onde estão as outras agendas? Onde estão as estratégias comunicadas com a mesma clareza e regularidade? Onde está o Ministério da Agricultura a dizer quantos hectares foram cultivados este ano e quantas famílias saíram da subsistência? Onde está o Ministério da Indústria e Comércio com o seu plano de substituição de importações e os números de execução? Onde está o Ministério da Energia e Águas a explicar, semana após semana, o ponto de situação das infra-estruturas que condicionam a vida de milhões de angolanos? A ausência não significa que esses ministérios não trabalham. Significa que não sabem — ou não querem — comunicar aquilo que fazem.



