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O Império Silencioso que Voltou ao Centro do Petróleo Angolano

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De uma fazenda de sisal no Huambo a participações na banca, diamantes e petróleo, a trajetória de António Mosquito continua a dividir opiniões e a expandir-se.

Há quem o chame de oligarca. Há quem o apresente como um exemplo raro de empresário angolano que nunca precisou de uma carreira política para prosperar. Entre estas duas leituras está a trajetória de António Mosquito Mbakassi, o homem por trás do GAM, Grupo António Mosquito, uma das maiores estruturas empresariais privadas do país, com participações em cerca de vinte empresas, três bancos angolanos, uma petrolífera própria e um historial de investimentos que já passou pela banca, pela imprensa e pela construção civil portuguesas. Esta semana, essa petrolífera voltou a crescer.

DE UMA FAZENDA DE SISAL AO PRIMEIRO NEGÓCIO

António Mosquito nasceu na Calenga, província do Huambo. Ainda jovem, geriu uma exploração de sisal ligada à firma Oliveira Barros & Companhia, sediada na Caála.

A viragem da sua vida profissional aconteceu na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974. Com a retirada dos fundadores da empresa para Portugal, coube a Mosquito assumir a gestão do negócio, num período de forte instabilidade política e económica em Angola.

Foi esse gesto de confiança que lançou a plataforma inicial da sua vida empresarial, o grupo familiar Mbakassy & Filhos, reunindo filhos e familiares próximos na gestão dos negócios.

UM IMPÉRIO COM QUASE VINTE EMPRESAS

Décadas depois, essa plataforma deu lugar à holding GAM, Grupo António Mosquito, hoje um conglomerado com mais de 1.300 trabalhadores em Angola e cerca de vinte empresas distribuídas por áreas como comércio e transporte, construção civil, hotelaria, imobiliário, banca, agropecuária e indústria.

No automóvel, Mosquito construiu a sua base financeira como importador das marcas Volkswagen e Audi, através da Mbkassy Veículos, vendidas sobretudo ao Estado angolano e à elite empresarial do país.

Na construção civil, o grupo associou-se historicamente a nomes como Teixeira Duarte e Odebrecht e, entre 2013 e 2015, chegou a controlar 66,7% do capital da construtora portuguesa Soares da Costa, através da GAM Holdings, sociedade de direito luxemburguês. Assumiu a presidência do conselho de administração antes de vender a posição maioritária a dois grupos locais e abandonar definitivamente a estrutura acionista da construtora em 2017.

No sector mineiro, mantém interesses na exploração diamantífera através da KSM-Kassypai Sociedade Mineira.

Na banca, Mosquito é hoje acionista de três instituições financeiras angolanas, com 1,82% do Banco Comercial Angolano, 12% do Banco Caixa Geral Angola, ao lado dos 25% da Sonangol, e 6,33% do Banco Sol.

A este universo juntou-se, em 2021, a compra da totalidade do capital do BAI Micro Finanças ao Banco Angolano de Investimentos (BAI), com o objectivo declarado de o transformar num banco comercial de pleno direito.

Em Portugal, foi acionista de referência da Global Media Group, dona do Diário de Notícias, Jornal de Notícias, O Jogo e da TSF, com uma posição que chegou a 27,5% do capital entre 2013 e 2016, antes de vender a totalidade da sua participação em 2017.

O PETRÓLEO E O REFORÇO DESTA SEMANA

É no petróleo que o grupo tem a sua posição mais estratégica e mais antiga, através da Falcon Oil Holding Angola, fundada pelo próprio Mosquito em 1997, com participações nos blocos offshore 33, operado pela Esso, 18/06, operado pela BP, 15/06, operado pela ENI, e 02/05, operado pela Somoil.

A operação mais recente aconteceu esta semana.

O Governo angolano autorizou a Sonangol Exploração e Produção a ceder 5% da sua posição no contrato de partilha de produção do Bloco 17/06, ao largo da província do Zaire, à Falcon Oil, duplicando a participação do grupo Mosquito neste activo de 5% para 10%.

Com a operação, a Sonangol reduz a sua fatia de 30% para 25%, mantendo a TotalEnergies como operadora com 30%, seguida da SSI Seventeen Limited com 27,5% e da Etu Energias com 7,5%.

O bloco, que iniciou produção comercial em 2025, produziu cerca de 859 mil barris nesse ano, o equivalente a aproximadamente 1,3% da produção anual da petrolífera nacional.

O valor pago pela Falcon Oil não foi tornado público.

UMA FORTUNA DIFÍCIL DE MEDIR

Algumas classificações internacionais do sector privado africano estimam a fortuna pessoal de António Mosquito acima dos mil milhões de dólares, embora não exista confirmação pública independente que permita validar esse valor com precisão.

O que não está em causa é a dimensão do grupo empresarial que preside.

A NARRATIVA DA INDEPENDÊNCIA

Uma narrativa recorrente sobre Mosquito apresenta-o como um caso raro no empresariado angolano: um homem que nunca exerceu funções políticas nem construiu uma carreira partidária, algo que, segundo essa leitura, explicaria tanto o respeito de que goza como a solidez da sua prosperidade.

A OUTRA LEITURA

Esta narrativa de independência não é consensual.

Em 2013, imprensa económica portuguesa descreveu-o como próximo do círculo do então Presidente José Eduardo dos Santos na operação de compra da Soares da Costa.

Investigações jornalísticas da Maka Angola, liderada por Rafael Marques, foram mais longe e apontaram para uma relação de representação dos interesses de Isabel dos Santos em negócios como a Soares da Costa e a Controlinveste, com base em documentos cuja verificação independente não foi possível confirmar através de fontes primárias adicionais.

O próprio Banco Sol, onde Mosquito é acionista com 6,33%, ilustra a proximidade do empresário a figuras do poder político angolano ao longo dos anos. O banco tem como maior acionista a Sansul, sociedade ligada à GEFI, holding do MPLA, e teve entre os seus acionistas o actual Presidente da República, João Lourenço, com 5,42% do capital até 2017, bem como a Fundação Lwini, ligada à antiga primeira-dama Ana Paula dos Santos.

Um episódio de 2005 ilustra igualmente esta tensão. Segundo relatos da imprensa angolana e portuguesa da época, Mosquito terá manifestado desagrado quando 16% da participação da sua empresa Mbakassi e Filhos num projecto de montagem automóvel da Volkswagen em Angola foram redistribuídos a favor de Tchizé dos Santos, filha do então Presidente, um episódio que acabou por levar a fabricante alemã a cancelar o projecto.

O LEGADO

Seja qual for a leitura que se privilegie sobre a sua relação com o poder político angolano, o legado empresarial de António Mosquito é hoje mensurável em números concretos: quase vinte empresas, mais de 1.300 trabalhadores directos, presença nos sectores automóvel, construção, banca, diamantes e petróleo, além de uma influência que se estende à geração seguinte através do sobrinho Agostinho Kapaia, fundador do Grupo Opaia, outro dos conglomerados privados em ascensão em Angola.

A operação desta semana no Bloco 17/06 confirma que, várias décadas depois de iniciar a sua trajetória empresarial, o fundador do GAM continua a expandir, e não apenas a gerir, o império que construiu.

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