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A força autóctone que está a redesenhar o poder no petróleo de Angola

Imagens: DR

Da defesa do conteúdo local à meta de alcançar 20% de participação no sector, a ASSEA liderada por Berta Rodrigues Issa procura ampliar o espaço das empresas nacionais numa das indústrias mais estratégicas da economia angolana.

ASSOCIAÇÃO EM DESTAQUE

Durante décadas, o petróleo consolidou-se como o principal motor económico de Angola. O país tornou-se um dos maiores produtores africanos, atraiu grandes operadores internacionais e estruturou uma das indústrias energéticas mais relevantes do continente. Ainda assim, a participação efectiva das empresas angolanas nos segmentos mais complexos e de maior valor da cadeia petrolífera manteve-se limitada.

É neste contexto que surge, em 2019, a ASSEA — Associação de Empresas Autóctones para a Indústria Petrolífera de Angola. A organização nasce com o objectivo de reforçar a presença das empresas nacionais na cadeia de valor do petróleo e gás, promovendo o desenvolvimento do conteúdo local como eixo estratégico da indústria.

Hoje, a associação agrega empresas ligadas a serviços de perfuração, cimentação, logística, fornecimento industrial, operações offshore, manutenção técnica e soluções especializadas para o upstream angolano. Mais do que uma entidade representativa, posiciona-se como um actor de articulação entre empresas nacionais, operadores internacionais e instituições públicas e financeiras.

Conteúdo local entre a ambição e a execução

Apesar da dimensão do sector petrolífero angolano, grande parte das operações de maior complexidade continua concentrada em empresas internacionais, sobretudo nas áreas de engenharia avançada, tecnologia offshore, serviços especializados e grandes contratos de operação.

A ASSEA tem defendido que o debate sobre conteúdo local deve ir além da simples subcontratação. Para a associação, trata-se de um processo estrutural que envolve transferência tecnológica, retenção de valor na economia nacional, desenvolvimento industrial e fortalecimento do tecido empresarial angolano.

Este enquadramento ganhou nova centralidade com a implementação do Decreto Presidencial n.º 271/20, aprovado em Outubro de 2020, que estabeleceu o regime jurídico do conteúdo local no sector petrolífero.

O diploma introduziu mecanismos de preferência para empresas nacionais e definiu objectivos de aumento da participação angolana na cadeia de fornecimento. Contudo, a execução prática tem enfrentado desafios persistentes relacionados com financiamento, certificação técnica, acesso a divisas, escala operacional e competitividade internacional.

É neste espaço entre a intenção política e a realidade do mercado que a ASSEA tem consolidado a sua posição institucional.

A meta dos 20% e a pressão estrutural

Entre as principais bandeiras da associação está a campanha “Action for 20%”, que estabelece como objectivo elevar a participação das empresas angolanas no sector petrolífero para 20% até 2027.

A iniciativa tornou-se uma referência central no discurso da ASSEA em fóruns nacionais e internacionais, posicionando o conteúdo local como uma questão de estratégia económica e não apenas de política industrial.

A associação defende que a concretização desta meta depende de quatro pilares fundamentais: acesso a financiamento, desenvolvimento de competências técnicas, criação de parcerias estratégicas e transferência efectiva de tecnologia.

Sem estes elementos, a estrutura empresarial nacional continuará limitada em termos de escala e capacidade competitiva dentro de uma indústria global altamente concentrada.

Berta Rodrigues Issa e a consolidação institucional

A liderança da ASSEA está actualmente a cargo de Berta Rodrigues Issa, que assumiu a presidência em 2024. Com experiência no sector financeiro e empresarial, tem sido uma das vozes mais activas no debate sobre o reposicionamento das empresas angolanas na indústria petrolífera.

Sob a sua liderança, a associação reforçou a presença institucional em conferências internacionais, ampliou a sua agenda de inclusão económica e aprofundou o discurso sobre a necessidade de evolução do conteúdo local para segmentos de maior complexidade técnica e maior valor acrescentado.

A visão defendida pela direcção da ASSEA aponta para um modelo em que as empresas angolanas não sejam apenas fornecedoras de serviços básicos, mas participantes activos em áreas de engenharia, tecnologia e operações especializadas.

Diplomacia económica e expansão internacional

Nos últimos anos, a ASSEA tem vindo a intensificar a sua actuação em iniciativas de dimensão internacional, procurando posicionar o conteúdo local angolano dentro de uma lógica de integração com mercados globais.

Um dos exemplos mais recentes foi o Fórum Angola–Itália Oil & Gas sobre conteúdo local, realizado em Luanda, no Hotel Epic Sana, organizado em parceria com a Câmara de Comércio Angola–Itália.

O encontro reuniu operadores do sector, instituições financeiras, seguradoras e empresas nacionais, com o objectivo de debater mecanismos de fortalecimento do conteúdo local e caminhos para o aumento da participação das empresas angolanas na cadeia de valor petrolífera.

Para a ASSEA, este tipo de iniciativas representa uma extensão da sua estratégia institucional, ao criar pontes entre o empresariado nacional e parceiros internacionais, num momento em que Angola procura reforçar a competitividade do seu sector energético sem abdicar do aumento da participação interna.

Formação, juventude e inclusão

A actuação da ASSEA não se limita ao plano institucional e político. Nos últimos anos, a organização tem expandido programas ligados à capacitação profissional, inclusão económica e desenvolvimento de capital humano.

Iniciativas como “Action for Youth” e “Action for Her” procuram aumentar a participação de jovens e mulheres no sector energético, promovendo formação técnica, acesso a oportunidades e maior integração no mercado de trabalho da indústria petrolífera.

Este eixo social complementa a estratégia económica da associação, ao procurar preparar uma nova geração de profissionais e empresas capazes de competir num sector altamente exigente.

Angola no contexto africano do conteúdo local

A discussão sobre conteúdo local não é exclusiva de Angola. Em vários países africanos produtores de petróleo e gás, o tema tornou-se central nas políticas de desenvolvimento económico.

Países como Nigéria, Gana, Namíbia e Moçambique têm vindo a reforçar políticas para aumentar a participação de empresas nacionais nas suas indústrias extractivas, num contexto de maior competição global por investimento energético.

Em Angola, esta dinâmica ganha particular relevância devido ao peso do petróleo na economia e à necessidade de transformar a produção em desenvolvimento industrial interno.

Uma disputa estrutural pelo valor do petróleo

Mais do que uma discussão sectorial, o debate sobre conteúdo local em Angola evoluiu para uma questão estrutural de soberania económica e retenção de valor.

A ASSEA posiciona-se como um dos principais actores desta transformação, defendendo que o futuro do petróleo angolano dependerá da capacidade de integração efectiva das empresas nacionais em toda a cadeia de valor da indústria.

Nesse sentido, o que está em jogo não é apenas a prestação de serviços, mas o reposicionamento do papel das empresas angolanas dentro de uma das indústrias mais competitivas e globalizadas do mundo.

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