Uma investigação forense conduzida pela Amnistia Internacional, em parceria com a Front Line Defenders e a Friends of Angola, confirmou que o jornalista angolano Teixeira Cândido foi alvo de espionagem digital em 2024 através do spyware Predator. Trata-se do primeiro caso documentado e confirmado de utilização desta tecnologia de vigilância em Angola.
De acordo com o relatório, o ataque ocorreu entre abril e junho de 2024, período em que o jornalista ainda exercia funções como secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos. Durante esse tempo, recebeu várias mensagens via WhatsApp de um número angolano desconhecido, cujo remetente se fazia passar por um estudante interessado em temas sociais e económicos. Um dos links enviados levou à infeção do seu telemóvel com o Predator, um software de vigilância altamente intrusivo.
O Predator é desenvolvido pela empresa Intellexa e é comercializado exclusivamente para governos. Uma vez instalado, permite acesso praticamente total ao dispositivo, incluindo mensagens encriptadas, emails, fotografias, dados de localização e, em certos casos, a ativação remota do microfone e da câmara, sem o conhecimento do utilizador.
A análise técnica foi realizada pelo Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional, que encontrou indicadores claros da presença e funcionamento do spyware no equipamento de Cândido. Os investigadores afirmam que este é o primeiro caso em Angola com confirmação forense do uso desta tecnologia, embora existam indícios de que ferramentas semelhantes possam estar em circulação no país desde pelo menos 2023.
Em declarações incluídas no relatório, Teixeira Cândido descreveu o impacto pessoal da espionagem: disse sentir-se “nu” perante a invasão da sua privacidade e afirmou que passou a limitar drasticamente o uso dos seus dispositivos, evitando tratar de assuntos íntimos ou sensíveis por meios digitais.
As organizações envolvidas sublinham que, apesar da confirmação técnica do ataque, não foi possível identificar de forma conclusiva quem ordenou ou financiou a operação. Ainda assim, alertam que o caso levanta sérias preocupações sobre vigilância estatal, repressão digital e segurança de jornalistas e defensores de direitos humanos em Angola.
O episódio surge num contexto em que o uso de tecnologias de espionagem contra jornalistas tem sido denunciado em vários países, levando a apelos internacionais para maior regulação e transparência na comercialização e utilização de spyware. Para a Amnistia Internacional e os seus parceiros, o caso de Teixeira Cândido representa um sinal de alerta urgente para a proteção da liberdade de imprensa e dos direitos digitais no país.


















