Uma investigação internacional baseada em imagens de satélite, dados ambientais e relatos de comunidades costeiras identificou sinais de derrames persistentes de petróleo ao largo de Angola, com particular incidência nas zonas de Soyo e Cabinda. A investigação, publicada pela Voxeurop a 28 de Setembro de 2026 após um trabalho de um ano, coloca o Bloco 15 no centro do caso. A área de Kizomba A, operada pela ExxonMobil, apresenta sinais de presença recorrente de petróleo na superfície marítima desde o início da produção, segundo a análise de imagens de satélite realizada pelo investigador independente Guillermo Tamburini-Beliveau. Segundo a análise, os primeiros sinais de petróleo na superfície surgiram pouco depois do início da produção em Kizomba A, em 2003. A partir de 2013, a presença de manchas passou a ser observada de forma persistente. O cenário considerado mais conservador pela investigação estima cerca de 90 mil barris acumulados ao longo do período analisado. Um geocientista independente consultado pela investigação considerou que as imagens apresentam fortes evidências de uma descarga provavelmente provocada por actividade humana. A análise de ventos e correntes também indica que parte do petróleo detectado poderá alcançar a costa. A ExxonMobil contesta, contudo, que a origem da mancha esteja relacionada com uma falha operacional no Bloco 15. A empresa afirmou que as suas inspecções não encontraram anomalias operacionais, falhas de equipamento ou perda de contenção que expliquem a mancha observada. A companhia aponta para infiltrações naturais de hidrocarbonetos existentes nas águas offshore de Angola e afirma ter identificado pontos de infiltração natural próximos das instalações de Kizomba A. A investigação não conseguiu obter uma amostra do petróleo no local para realizar uma verificação independente da explicação apresentada pela ExxonMobil. O caso permanece, portanto, marcado por uma divergência entre a análise por satélite e a explicação apresentada pela operadora. Nas comunidades costeiras do Zaire e de Cabinda, pescadores relatam impactos recorrentes sobre a actividade pesqueira. A investigação documentou redes danificadas pelo petróleo, manchas nas praias e períodos de redução ou ausência de capturas. Os relatos apontam também para impactos sobre culturas agrícolas e alimentos consumidos pelas comunidades. A dimensão sanitária exige maior cautela. Profissionais de saúde ouvidos pela Voxeurop associaram aumentos de determinadas doenças, incluindo problemas gastrointestinais e infecções cutâneas, à exposição à água e aos alimentos afectados. Contudo, a própria investigação ressalva que não existe um estudo epidemiológico que tenha estabelecido uma relação causal entre a extracção petrolífera e os casos de cancro mencionados por uma antiga responsável de saúde de Cabinda. O caso não se limita ao Bloco 15. Em Cabinda, a investigação recupera episódios envolvendo o Bloco 0, operado pela Chevron através da Cabinda Gulf Oil Company. A companhia foi associada a um derrame de 2025 e continua a enfrentar um processo relacionado com um derrame ocorrido em 2005, envolvendo pescadores da região. A Chevron afirmou à Voxeurop estar comprometida com operações seguras e responsáveis e com a protecção das pessoas, das comunidades e do ambiente. Os dados também levantam uma questão sobre a diferença entre a informação oficial disponível e aquilo que pode ser observado por métodos independentes. Segundo a investigação, dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis indicam uma média de cerca de 450 barris derramados por ano em todos os blocos offshore, com base num período de sete anos. Para 2025, a Voxeurop refere que a ANPG registou 20 barris em três incidentes em todo o país. A legislação angolana determina que derrames superiores a um barril, ou ocorrências com impacto ambiental significativo, sejam comunicados às autoridades. O Decreto Executivo n.º 11/05 estabelece também procedimentos de notificação, resposta e limpeza dos derrames. A investigação encontrou, assim, uma diferença relevante entre os volumes registados pelas autoridades e as estimativas obtidas através de imagens de satélite. Essa diferença não prova, por si só, que os volumes oficiais estejam incorrectos: os métodos de medição são diferentes e a própria análise por satélite não consegue determinar directamente a espessura das manchas. Mas levanta questões sobre a capacidade de detectar, medir e atribuir derrames offshore de pequena e média dimensão. O caso também mostra a complexidade da responsabilidade nos blocos petrolíferos. No Bloco 15, a ExxonMobil é actualmente a operadora, enquanto a estrutura de participação inclui Azule Energy, Equinor e Sonangol. A Eni, que aparece na documentação histórica do bloco, informou à investigação que não possui interesse directo no activo analisado e remeteu as questões operacionais para a ExxonMobil. A TotalEnergies surge na investigação num contexto diferente: os dados comerciais analisados pela equipa indicam que a empresa actuou como charterer de cargas provenientes do Bloco 15. Essa relação comercial não constitui, por si só, evidência de responsabilidade pelos derrames. O que a investigação coloca em evidência é uma questão mais ampla para Angola: como garantir que derrames offshore sejam detectados, quantificados, atribuídos e comunicados de forma suficientemente transparente para permitir uma resposta eficaz das autoridades, das empresas e das comunidades afectadas.