Em apenas cinco anos, a Etu Energias passou de uma produção de cerca de 4.000 barris de petróleo por dia para um pico de 24.000 barris, transformou resultados negativos num lucro líquido de US$ 215,2 milhões em 2024 e multiplicou a dimensão do seu portefólio. A empresa que nasceu em 2000 como Somoil é hoje apresentada pela própria administração como a maior empresa privada de energia 100% angolana. A transformação ganhou velocidade em Junho de 2020, quando Edson R. dos Santos assumiu a liderança da empresa. Uma das primeiras prioridades foi atacar a estrutura de custos e melhorar a eficiência operacional através do programa EMAGRECE. A estratégia passou pela optimização dos activos, aumento da produção, disciplina de custos e procura de novas oportunidades de crescimento. Os resultados começaram a alterar a escala da companhia. Em 2020, a produção rondava os 4.000 barris por dia. Em 2024, a Etu Energias terminou o ano com uma produção média de cerca de 22.000 barris por dia e registou um lucro líquido de US$ 215,2 milhões, mais 53% do que no ano anterior, sobre receitas operacionais de US$ 674,5 milhões. A empresa atingiu ainda um pico de produção de 24.000 barris por dia após a integração de novos activos. O crescimento não aconteceu apenas através do aumento da produção própria. A estratégia passou também pela construção de um portefólio de participações em activos operados por terceiros. Em 2024, a Etu Energias concluiu a aquisição indirecta à Galp de 5% do Bloco 32, 9% do Bloco 14 e 4,5% do Bloco 14K, reforçando a sua exposição ao offshore angolano e entrando em activos de águas profundas. Em Março de 2026, a companhia voltou a expandir-se nos mesmos activos ao adquirir à Azule Energy as suas participações de 20% no Bloco 14 e 10% no Bloco 14K. A operação foi avaliada em até US$ 310 milhões, incluindo pagamentos contingentes diferidos, e reforçou significativamente a posição da Etu nos dois blocos. Mas foi a operação com a Chevron que colocou a estratégia da empresa no centro das atenções do sector. Em Março de 2026, a Energean anunciou um acordo para adquirir à Chevron 31% do Bloco 14 e 15,5% do Bloco 14K. Meses depois, a Etu Energias exerceu o seu direito de preferência enquanto parceira existente nos dois activos. O acordo entre Chevron e Energean deixou de ser o caminho para a operação e, em Agosto, a Etu assinou directamente com a Chevron um novo contrato para adquirir as mesmas participações, por uma consideração base de US$ 260 milhões. A conclusão continua sujeita às aprovações aplicáveis. O episódio é particularmente relevante porque mostra uma mudança de estatuto. A Etu deixou de ser apenas uma empresa angolana que participa em activos petrolíferos e passou a actuar como consolidadora, utilizando capital, financiamento e direitos contratuais para aumentar a sua exposição a activos estratégicos. A expansão também alterou a dimensão do portefólio. Em 2024, a empresa aumentou de seis para 15 concessões entre activos operados e não operados e reportou reservas de 106 milhões de barris. A estrutura continua, contudo, relativamente pequena em termos de recursos humanos. A Etu Energias indica uma força de trabalho de aproximadamente 300 trabalhadores directos, além de mais de 500 trabalhadores indirectos. Em 2025, a empresa reportou 297 colaboradores, dos quais 94% eram angolanos. A estratégia também já ultrapassa o upstream. A Etu Energias opera postos de abastecimento e tem planos para expandir a sua presença na distribuição. A empresa anunciou igualmente a construção de uma fábrica de lubrificantes e apresenta como objectivo tornar-se uma empresa integrada de energia, com presença ao longo de diferentes segmentos da cadeia de valor. A meta de produção é ambiciosa: chegar aos 80.000 barris por dia até 2030. Para atingir esse nível, a companhia pretende combinar o desenvolvimento dos activos existentes, novos projectos, aquisição selectiva de activos e recuperação de produção em campos maduros. A ambição é acompanhada por uma narrativa empresarial própria. Edson dos Santos resume a cultura da companhia nos chamados três A’s: agilidade, ambição e autenticidade. Em Julho de 2026, o gestor afirmou que a Etu pretende crescer rapidamente, ampliar a produção, desenvolver o downstream e posicionar-se como uma empresa presente em toda a cadeia de valor energética. Essa ambição acompanha também uma visão mais ampla para Angola. No Doing Business Angola 2026, Edson dos Santos defendeu que o país reúne condições para se tornar um hub energético para a África Austral, numa estratégia que combina produção de petróleo e gás, infra-estruturas energéticas, downstream e novas fontes de energia. A expansão da Etu Energias não elimina, naturalmente, questões sobre a empresa. A estrutura accionista e a origem do capital continuam a ser menos transparentes para o público do que as de grandes companhias cotadas ou multinacionais com informação financeira amplamente disponível. Existem também críticas e alegações na imprensa sobre relações de proximidade política, mas estas não devem ser apresentadas como factos estabelecidos sem confirmação independente. O que é verificável é a dimensão da transformação empresarial. Em 2020, a Etu produzia cerca de 4.000 barris por dia. Em 2024, atingiu uma produção média de cerca de 22.000 barris por dia, com um pico de 24.000, e registou US$ 215,2 milhões de lucro líquido. Em 2026, continuou a aumentar a sua exposição aos blocos 14 e 14K e estabeleceu como meta chegar aos 80.000 barris por dia até ao final da década. É essa combinação que explica a relevância crescente da Etu Energias no sector angolano: não apenas produz petróleo, mas procura construir um portefólio, adquirir activos, aumentar a escala operacional, captar financiamento e avançar para outras etapas da cadeia de valor. A empresa que começou como Somoil entrou numa nova fase. E, se conseguir transformar a actual estratégia de aquisições e desenvolvimento de activos em produção sustentável, a próxima etapa poderá ser muito maior do que a transformação que marcou os últimos cinco anos.