O Grupo Carrinho está a um passo de reforçar significativamente a sua presença no sector financeiro angolano, mas a operação ainda não está fechada. E existe uma cláusula que pode mudar o comprador dos 33,35% do Banco de Fomento Angola (BFA) actualmente detidos pelo Banco BPI. O BPI anunciou um acordo para vender a sua participação de 33,35% no BFA à Congolian Financial, sociedade ligada ao Grupo Carrinho, por um valor fixo de 388,5 milhões de euros. A operação envolve 5.002.500 acções, mas a sua concretização está dependente de várias condições suspensivas, entre elas o não exercício, pela Unitel, do direito de preferência previsto no acordo parassocial celebrado com o BPI. É precisamente aqui que surge o paralelo com o recente caso Chevron-Energean. Em Agosto, a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis confirmou que a Etu Energias assinou com a Chevron um contrato para adquirir 31% do Bloco 14 e 15,5% do Bloco 14K, depois de exercer o seu direito de preferência enquanto parceira existente nas duas licenças. O movimento alterou o destino de uma operação que inicialmente envolvia outro comprador. No BFA, a Unitel encontra-se perante um mecanismo semelhante. A cláusula 7.ª do acordo parassocial atribui à Unitel um direito de preferência caso o BPI pretenda vender as suas acções do banco, obrigando o BPI a comunicar previamente à Unitel o comprador, a quantidade de acções e os termos e condições da operação. Caso a Unitel exerça o direito, a aquisição poderá ser executada por si nas condições aplicáveis ao negócio comunicado. A diferença é que, neste caso, a Unitel já é a maior accionista do BFA. De acordo com o Relatório e Contas de 2025, a Unitel detinha 36,90% do capital do banco, enquanto o BPI possuía 33,35%. A Congolian Financial surgia então com 7,61%. Se a Unitel não exercer o direito de preferência e as restantes condições forem cumpridas, a Congolian Financial passará a deter os 33,35% actualmente pertencentes ao BPI. A diferença entre os dois maiores accionistas será, nesse cenário, de apenas 3,55 pontos percentuais. Será uma alteração relevante na estrutura accionista do BFA: de um lado, a Unitel com 36,90%; do outro, a participação de 33,35% passará de uma instituição financeira portuguesa para uma sociedade ligada a um dos maiores grupos empresariais angolanos. Mas existe um segundo caminho. Se a Unitel exercer o direito de preferência, a operação com a Congolian Financial poderá não avançar nos termos anunciados e a participação do BPI poderá ser adquirida pela própria Unitel. Num cenário puramente matemático, caso adquirisse a totalidade dos 33,35%, a Unitel passaria de 36,90% para 70,25% do capital do BFA. Esse cenário, contudo, é apenas uma possibilidade. Não há, até ao momento, indicação pública de que a Unitel tenha decidido exercer o direito. A operação está ainda sujeita à não oposição do Banco Nacional de Angola e à confirmação pela Comissão do Mercado de Capitais de que a aquisição pela Congolian Financial não implica o lançamento de uma oferta pública de aquisição obrigatória. Só depois de cumpridas estas condições será definida a data efectiva da transacção. O valor da operação também coloca a transacção entre os movimentos mais relevantes recentes no sector financeiro angolano. As duas componentes fixas do preço somam 388,5 milhões de euros, enquanto existe ainda uma componente variável correspondente a metade do dividendo do BFA de 2026 atribuível às acções vendidas. Por isso, a questão central já não é apenas a saída do BPI do BFA. É saber quem ficará com os seus 33,35%. Tal como aconteceu no negócio entre a Chevron e a Energean, um direito de preferência pode transformar uma venda acordada numa operação com outro comprador. No BFA, a decisão está agora nas mãos da Unitel.



