Pelo segundo mês consecutivo, uma refinaria africana lidera o abastecimento europeu de combustível de aviação. A Refinaria de Petróleo Dangote, na Nigéria, consolidou-se como a maior fornecedora externa de combustível de aviação à Europa em Julho, pelo segundo mês consecutivo, superando os Estados Unidos e reforçando o papel da África no comércio global de produtos petrolíferos refinados. Segundo dados da consultora internacional de inteligência de mercadorias Kpler, divulgados pela própria Dangote Petroleum Refinery & Petrochemicals a 6 de Agosto, a refinaria exportou mais de 400 mil toneladas de jet fuel para a Europa em Julho, representando cerca de 20% das importações europeias do produto naquele mês. A Europa importou aproximadamente 2,06 milhões de toneladas de jet fuel durante o período. O resultado surge depois de a Nigéria ter registado, em Junho, um recorde de 466 mil toneladas exportadas, ultrapassando pela primeira vez os Estados Unidos como maior fornecedor externo de combustível de aviação ao mercado europeu. O feito aconteceu durante uma avaria O desempenho ganha ainda maior relevância porque ocorreu num mês marcado por uma interrupção operacional na refinaria. Uma unidade de recuperação de calor apresentou uma avaria a partir de 10 de Julho, obrigando a trabalhos de manutenção e reduzindo temporariamente o processamento de crude para cerca de 350 a 400 mil barris por dia, contra os 600 a 650 mil barris diários registados anteriormente. Ainda assim, a Dangote manteve a liderança das exportações de jet fuel para a Europa. A reparação terá sido concluída na última semana de Julho, abrindo caminho para uma recuperação da capacidade de processamento nos meses seguintes. De importadora a exportadora Durante décadas, a Nigéria foi simultaneamente um dos maiores produtores de petróleo de África e um importante importador de combustíveis refinados. A entrada em operação da Dangote Petroleum Refinery está a alterar essa dinâmica. Localizada em Lekki, Lagos, a refinaria foi concebida para processar até 700 mil barris de crude por dia, transformando petróleo bruto em gasolina, gasóleo, combustível de aviação e outros derivados destinados tanto ao mercado doméstico como à exportação. A sua localização na costa atlântica dá-lhe ainda uma vantagem logística para abastecer mercados europeus e africanos. África começa a disputar mercados globais A ascensão da Dangote vai além da Nigéria. Uma infraestrutura industrial construída em África está a conquistar espaço num mercado internacional altamente competitivo e historicamente abastecido por refinarias dos Estados Unidos, Médio Oriente e Ásia. O caso demonstra como capacidade de refinação, logística e infraestrutura energética podem transformar a posição de um país na cadeia global de valor do petróleo. A Nigéria deixa, assim, de ser apenas fornecedora de crude e começa a afirmar-se também como exportadora de produtos petrolíferos refinados. Um momento estratégico para a Dangote O desempenho ocorre ainda num momento importante para o grupo. A Dangote Industries prepara uma possível entrada em bolsa da refinaria, num processo que poderá envolver uma oferta pública avaliada em cerca de 5 mil milhões de dólares. Dois meses consecutivos como principal fornecedor externo de jet fuel à Europa acrescentam um argumento relevante à narrativa de crescimento da empresa perante investidores. Mais do que uma estatística mensal, o resultado representa um sinal de mudança na geografia do comércio energético. Uma refinaria africana está a abastecer a aviação europeia em escala continental. E isso coloca a África não apenas como origem do petróleo, mas cada vez mais como centro de transformação e exportação de energia.



