Enquanto a atenção pública continua concentrada no preço do barril de petróleo e nos anúncios políticos, há sete projectos que estão, silenciosamente, a definir se Angola continuará entre os principais actores energéticos de África nas próximas décadas. Nenhum deles é desconhecido. Todos foram anunciados oficialmente, contam com enquadramento legal e envolvem investimentos de milhares de milhões de dólares. Ainda assim, poucos são acompanhados com o rigor que o seu impacto económico justifica. Mais do que obras ou investimentos isolados, estes projectos representam decisões estratégicas sobre produção, gás natural, refinação, exploração, segurança energética e competitividade internacional. É neles que começa a desenhar-se o sector energético angolano de 2040 e 2050. 1. New Gas Consortium O New Gas Consortium (NGC) representa um marco histórico para Angola por ser o primeiro projecto de gás não associado alguma vez desenvolvido no país. Localizado nos campos de Quiluma e Maboqueiro, ao largo do Soyo, entrou em produção em Novembro de 2025 e deverá atingir, durante o quarto trimestre de 2026, uma capacidade entre 300 e 330 milhões de pés cúbicos de gás por dia. O investimento está estimado entre 2,2 e 2,4 mil milhões de dólares. A Azule Energy assume a operação do projecto, embora a participação exacta da empresa varie entre diferentes fontes públicas, oscilando entre 25,6% e 37,4%. Completam o consórcio a Cabinda Gulf Oil Company (Chevron), a Sonangol P&P e a TotalEnergies. Mais do que uma questão estatística, esta divergência ilustra a necessidade de maior transparência na divulgação de informação sobre projectos estratégicos desta dimensão. A importância do NGC vai muito além da produção de gás. O projecto reforça o abastecimento da Angola LNG, contribui para a produção de electricidade, reduz emissões relativamente aos combustíveis mais poluentes e cria uma nova base para a industrialização nacional. Num horizonte de médio prazo, o gás poderá tornar-se um dos activos energéticos mais valiosos do país. 2. Projecto Kaminho O Kaminho é o primeiro desenvolvimento petrolífero em águas profundas da Bacia do Kwanza, no Bloco 20/11, operado pela TotalEnergies em parceria com a Sonangol e a PETRONAS. No final de Junho de 2026 foi concluída a estrutura de protecção do FPSO, enquanto a fabricação de módulos em Ambriz já ultrapassou as 5.500 toneladas produzidas. O projecto contabiliza ainda mais de 1,2 milhão de horas de trabalho e uma taxa de nacionalização da mão-de-obra superior a 94%. O avanço do Kaminho ocorre num contexto em que várias multinacionais reduziram investimentos petrolíferos noutras regiões do mundo. O facto de a TotalEnergies manter uma aposta desta dimensão em Angola demonstra que continua a considerar o país uma geografia estratégica para o desenvolvimento da produção offshore nas próximas décadas. 3. Greater PAJ Anunciado em Junho de 2026, o Greater PAJ tornou-se um dos maiores investimentos recentes do sector petrolífero angolano. Avaliado em 5,1 mil milhões de dólares, o projecto integra, pela primeira vez, dois blocos distintos — 31 e 31/21 — numa única infra-estrutura de desenvolvimento. As reservas estimadas ascendem a 252 milhões de barris, estando prevista uma produção diária de cerca de 95 mil barris de petróleo e 70 milhões de pés cúbicos de gás destinados à Angola LNG. O arranque da produção está previsto para o primeiro semestre de 2029. A Azule Energy já adjudicou os principais contratos a empresas como CIMC Raffles, Baker Hughes, OneSubsea, TechnipFMC, Vallourec e Saipem. Apesar de receber menos atenção mediática do que outros investimentos, o Greater PAJ poderá transformar-se num modelo de desenvolvimento para prolongar a vida útil de campos maduros em Angola. 4. Refinaria do Lobito Poucos projectos ilustram tão claramente os desafios da execução de grandes investimentos como a Refinaria do Lobito. Em Dezembro de 2024, a Sonangol indicava uma execução física de apenas 10,29% e mantinha como referência a entrada em funcionamento em 2027. Já em Janeiro de 2026, fontes oficiais passaram a indicar que mais de metade do investimento previsto tinha sido aplicada, mas apontavam a produção dos primeiros derivados apenas para Dezembro de 2029, um adiamento de aproximadamente dois anos face ao calendário anteriormente apresentado. Entretanto, o Observatório AOG 2026 passou a estimar o custo global do projecto em cerca de 6,2 mil milhões de dólares, enquanto decorrem negociações para financiamento adicional. A capacidade prevista mantém-se nos 200 mil barris por dia e a Sonangol continua como principal investidora, embora Angola tenha manifestado interesse em integrar novos parceiros internacionais. Mais do que discutir se a refinaria será concluída, a questão relevante passa por compreender as razões para a revisão sucessiva dos prazos e acompanhar a evolução de um dos maiores investimentos industriais da história recente do país. 5. Plano de Concessões e Exploração 2026–2030 Nem todos os projectos decisivos assumem a forma de plataformas ou refinarias. O novo Plano de Concessões e Exploração 2026–2030, preparado pela ANPG, poderá definir a próxima geração de descobertas petrolíferas em Angola. O plano introduz maior flexibilidade contratual, sobretudo para áreas consideradas mais desafiantes, e amplia o interesse para bacias interiores como Cassanje e Etosha-Cuvelai, sem descurar as tradicionais bacias do Congo, Kwanza, Benguela e Namibe. A necessidade é clara: sem novas descobertas economicamente viáveis, a produção nacional tenderá a entrar numa fase de declínio estrutural. 6. Campos Marginais Enquanto os grandes projectos concentram a maior parte da atenção pública, os campos marginais podem desempenhar um papel determinante na manutenção da produção angolana. Em Março de 2026, o Executivo aprovou a Declaração de Descoberta Marginal dos campos Urano e Dione, no Bloco 31/21, permitindo a aplicação de incentivos fiscais específicos destinados a tornar economicamente viáveis reservas de menor dimensão. A medida enquadra-se numa estratégia mais ampla de maximização dos recursos existentes, num contexto em que a African Energy Chamber estima investimentos próximos de 70 mil milhões de dólares no upstream angolano ao longo dos próximos anos. A recuperação sustentada da produção poderá depender tanto destes projectos discretos como dos grandes desenvolvimentos offshore. 7. Estratégia de Hidrocarbonetos Angola 2025–2050 Mais do que um projecto específico, esta estratégia estabelece a visão de longo prazo para todo o sector. Em 2026, o MIREMPET



