O IMPÉRIO SILENCIOSO DA CHEVRON EM ANGOLA (PARTE2) Como a CABGOC transformou activos maduros em vantagem competitiva através de engenharia de integração offshore, optimização de CAPEX e expansão incremental no Bloco 0. Se a primeira parte desta série explicou como Cabinda se tornou a base estrutural da presença da Chevron em Angola, esta segunda parte entra no núcleo operacional da estratégia: a forma como a empresa consegue manter competitividade num ambiente dominado por campos maduros, pressão de custos e volatilidade de preços. No centro desta equação está uma lógica simples, mas tecnicamente exigente: produzir mais com menos investimento novo, prolongando a vida útil de infraestruturas existentes através de engenharia de integração offshore. South N’dola e o modelo de extensão produtiva no Bloco 0 O projecto South N’dola, no Bloco 0, representa uma extensão directa da arquitectura operacional já existente em Cabinda, em vez de uma nova unidade de desenvolvimento isolada. Integrado no sistema da CABGOC, o projecto utiliza ligação por tieback à infraestrutura de Mafumeira, onde ocorre o processamento inicial de crude e gás antes do encaminhamento para o Terminal de Malongo, um dos principais pontos de exportação da região. Esta abordagem tem um impacto directo na estrutura de custos. Ao evitar a construção de novas unidades de processamento offshore, o projecto reduz significativamente o CAPEX por barril incremental produzido, ao mesmo tempo que encurta o ciclo entre investimento e produção efectiva. Segundo dados operacionais divulgados pelo sector, a fase de construção do South N’dola gerou mais de 800 empregos directos e indirectos em Angola, com forte concentração nas províncias de Cabinda e zonas industriais associadas à cadeia logística offshore. O tempo de execução do projecto — pouco mais de dois anos até à primeira produção — também se destaca no contexto da indústria offshore, onde projectos em águas maduras frequentemente enfrentam atrasos superiores à média global. O papel do Bloco 0 na optimização de campos maduros O Bloco 0 continua a ser o eixo central da estratégia operacional da Chevron em Angola, não apenas pela sua produção, mas pela forma como permite gerir maturidade de reservatórios de forma integrada. Em campos offshore maduros, a tendência natural é a queda progressiva da produção e o aumento do custo marginal por barril. A resposta da CABGOC tem sido estrutural: integrar novos poços e pequenos projectos de desenvolvimento dentro de um sistema já existente, em vez de criar novas infraestruturas independentes. Este modelo reduz duplicação de activos industriais e melhora a eficiência global do sistema, permitindo que infraestruturas como Mafumeira e Malongo funcionem como hubs centrais de processamento e exportação. Desempenho global e contexto corporativo No plano global, a Chevron registou no quarto trimestre de 2025 um lucro líquido de 2,84 mil milhões de dólares, representando uma queda de 12,5% face ao período homólogo, pressionado pela descida dos preços internacionais do crude. A receita total fixou-se em 46,87 mil milhões de dólares, enquanto o fluxo de caixa operacional aumentou para 10,8 mil milhões de dólares, um dos indicadores mais importantes para avaliação de resiliência operacional em empresas de upstream. Este crescimento do cash flow, apesar da queda de lucros, reflecte precisamente o efeito de activos integrados e de baixo custo marginal, como os sistemas offshore maduros de Angola, que tendem a manter produção relativamente estável mesmo em ciclos de preço mais fracos. Eficiência como estratégia: o modelo brownfield da CABGOC O modelo operacional da CABGOC em Cabinda pode ser descrito como uma estratégia de “brownfield optimisation”, ou seja, maximização de activos existentes em vez de expansão greenfield intensiva. Na prática, isto traduz-se em três pilares técnicos: Primeiro, a utilização de infraestruturas já amortizadas, como plataformas e sistemas de processamento, reduzindo investimento incremental necessário. Segundo, a integração de novos poços em sistemas existentes, através de tiebacks e redes subsea, o que reduz complexidade operacional. Terceiro, a centralização do processamento em hubs como Mafumeira, permitindo ganhos de escala e eficiência logística. Este modelo é particularmente relevante num contexto global em que o custo de capital aumentou e os projectos offshore greenfield exigem retornos mais elevados para justificar investimento. Cabinda como sistema de engenharia contínua O resultado desta abordagem não é apenas produção contínua, mas a criação de um sistema de engenharia industrial que evolui por camadas. Em vez de ciclos de desenvolvimento e desmobilização, Cabinda opera como uma estrutura incremental, onde novos projectos são integrados num sistema existente sem ruptura operacional. Isto explica porque a Chevron mantém uma presença consistente na região mesmo em fases de maturidade dos campos, ao contrário de operadores que saem após o pico de produção. Conclusão A verdadeira força da Chevron em Angola não está apenas nos volumes produzidos, mas na eficiência estrutural do sistema que construiu em Cabinda. O South N’dola é apenas o exemplo mais recente de uma lógica que já atravessa décadas: maximizar activos existentes, reduzir fricção operacional e manter produção estável através de integração industrial contínua. Num sector global cada vez mais pressionado por custos, transição energética e exigências de capital, este modelo transforma Cabinda num activo estratégico raro — não pela expansão, mas pela capacidade de persistir com eficiência.
O PETRÓLEO QUE FICA: ANGOLA E A BATALHA PELO CONTEÚDO LOCAL
RELATÓRIO ESPECIAL MUNDO INFRA 2026 YTD (JANEIRO – ABRIL) O sector petrolífero angolano entrou numa fase em que o conteúdo local deixou de ser apenas um conceito político para se tornar um sistema de medição, acompanhamento e execução institucional. O discurso do Ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás na Conferência Anual do Conteúdo Local 2026 permite reconstruir, com maior precisão, o estado actual desta política, os seus avanços e as suas limitações estruturais. Desde Outubro de 2020, com a publicação do Decreto Presidencial n.º 271/20, o conteúdo local no sector petrolífero angolano apresenta crescimento financeiro relevante, mas ainda com limitações estruturais na sua capacidade de transformação económica. Entre 2022 e 2025, o valor adjudicado a empresas detidas por cidadãos angolanos aumentou cerca de 144%, passando de aproximadamente 358 milhões para 733 milhões de dólares. Em termos percentuais, a participação oscilou entre 4% e 12%, encerrando 2025 em torno de 8%, devido à maior complexidade dos contratos no último trimestre. O sector petrolífero continua a ser dominado por grandes operadores internacionais, mas o quadro institucional e regulatório consolidado desde 2017 criou as bases para uma maior participação nacional, ainda em fase de maturação. UM SECTOR EM TRANSFORMAÇÃO DESDE 2016 Desde 2016, a produção petrolífera de Angola tem registado uma tendência de declínio anual estimada entre 10% e 15%, resultado da maturidade dos campos existentes e da ausência de ciclos regulares de licitação e exploração durante vários anos. Este cenário coincidiu com uma transformação estrutural do mercado energético global, marcada por maior concorrência entre países produtores, entrada de novos actores internacionais e pressão crescente associada à transição energética. A partir de 2017, o executivo angolano iniciou um ciclo de reformas profundas no sector de hidrocarbonetos, com o objectivo de reforçar a transparência, restaurar a confiança dos investidores e aumentar a eficiência institucional. Foram criadas ou reestruturadas entidades-chave do sector: Estas reformas permitiram manter a presença de grandes operadoras internacionais, atrair novos investidores como a Petronas e registar o regresso da Shell ao mercado angolano. Entre 2017 e 2025, o sector acumulou cerca de 99 mil milhões de dólares em investimentos. Para o período 2026–2030, a previsão ultrapassa os 66 mil milhões de dólares. EXPANSÃO DA BASE PRODUTIVA E NOVOS PROJETOS O esforço de estabilização da produção tem sido acompanhado por novos desenvolvimentos operacionais. Desde 2019, destacam-se projectos como Agogo, CLOV fase 3, Begónia e Ndola Sul, com o objectivo de manter a produção nacional acima de 1 milhão de barris de petróleo por dia. Foram adjudicados 42 blocos petrolíferos nas bacias do Baixo Congo, Kwanza e Namibe, estando ainda 30 concessões em fase de análise e aprovação. As descobertas nos blocos 15, 17 e 14, incluindo o poço Algaita-01 no bloco 15/06, anunciado em Janeiro de 2026, reforçam o potencial exploratório do país. No conjunto, estimam-se recursos superiores a 1.000 milhões de barris de petróleo e cerca de 1 trilião de pés cúbicos de gás. O projecto Cameia, no bloco 20/11, representa o primeiro desenvolvimento offshore na bacia do Kwanza, com infraestruturas em construção e participação do estaleiro da Petromar no Ambriz, prevendo-se início de produção em 2028. GÁS NATURAL E NOVA FRONTEIRA INDUSTRIAL O gás natural assume hoje um papel estratégico na diversificação da economia energética angolana. A aprovação da Lei do Gás em 2018 e do Plano Director do Gás em 2024 criou o enquadramento legal necessário para o desenvolvimento deste segmento. O consórcio de gás não associado está a desenvolver os campos Quiluma e Maboqueiro, com capacidade estimada de 330 milhões de pés cúbicos por dia. O primeiro gás foi registado em Março de 2026. Foi igualmente construída uma unidade de tratamento de gás no Soyo, reforçando a capacidade nacional de processamento. A Angola LNG mantém um papel central na monetização do gás natural. Este movimento abre espaço para novas cadeias industriais, nomeadamente fertilizantes, aço e petroquímica. CONTEÚDO LOCAL: ENTRE CRESCIMENTO E LIMITES ESTRUTURAIS O Decreto Presidencial n.º 271/20 define o conteúdo local como a promoção da participação do empresariado nacional, da utilização de bens e serviços produzidos em Angola e do desenvolvimento da força de trabalho nacional. O modelo assenta em três regimes de contratação: exclusividade, preferência e concorrência, sob supervisão da ANPG. Entre 2022 e 2025, a ANPG homologou contratos no valor acumulado de aproximadamente 54,4 mil milhões de dólares. Deste total, cerca de 97% foram adjudicados a empresas registadas em Angola. A evolução da participação nacional revela crescimento, mas também volatilidade: Apesar da oscilação percentual, o valor absoluto aumentou 144%, passando de 358 milhões de dólares em 2022 para cerca de 733 milhões em 2025. Actualmente, existem mais de 3.200 empresas registadas na base de dados da ANPG, das quais cerca de 1.400 estão certificadas. A diferença entre registo e certificação continua a ser um dos principais pontos de estrangulamento do sistema. ANGOLANIZAÇÃO E TRANSFERÊNCIA DE COMPETÊNCIAS No segmento upstream, os resultados são mais expressivos. Em 2017, o sector contava com 22.927 trabalhadores e uma taxa de angolanização inferior a 70%. Actualmente, regista 42.568 trabalhadores, dos quais 87% são angolanos, cerca de 37.034 profissionais. Deste universo, aproximadamente 5.800 ocupam cargos de direcção e chefia. Importa destacar que cerca de 15% desses quadros são mulheres. No downstream, o IRDP regula 931 postos de abastecimento, que empregam cerca de 37.240 trabalhadores, maioritariamente jovens entre os 25 e 45 anos. Está prevista a construção de mais 50 postos até 2027. CAPACITAÇÃO, FORMAÇÃO E INFRAESTRUTURA HUMANA O sector petrolífero tem investido em instituições de formação e capacitação técnica, incluindo o INP, o SPTEC e o Centro de Formação Marítima de Angola. Foram introduzidas melhorias curriculares desde 2017 e criadas novas instituições de ensino e investigação, incluindo o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Sonangol no Sumbe e o financiamento para cinco novas instituições de ensino superior. No domínio da responsabilidade social, destacam-se bolsas de estudo, apoio a universidades como a Agostinho Neto e a Católica de Angola, bem como programas de empreendedorismo promovidos por operadoras como a TotalEnergies e a Sonangol. DESAFIOS ESTRUTURAIS DO SISTEMA Apesar dos avanços,



