Jaqueline Mabiala Ngulo é uma profissional angolana ligada ao sector tecnológico e Directora da Women in Tech Angola, com foco na promoção da inclusão digital, liderança feminina e desenvolvimento do ecossistema tecnológico no país. A sua actuação tem sido marcada pela defesa de mais oportunidades para jovens e mulheres na tecnologia, bem como pela construção de uma base sólida para a inovação em Angola. Numa entrevista concedida à Infra Magazine, Jaqueline Ngulo partilha a sua visão sobre o momento actual do sector tecnológico em Angola, os desafios da inclusão feminina, e as oportunidades que se abrem para o futuro digital do país. 1. Como avalia o actual momento do sector tecnológico em Angola? Jaqueline Ngulo: Angola vive um momento de transição acelerada e muito promissor. Estamos a deixar de ser apenas consumidores de tecnologia para nos tornarmos criadores de soluções locais. O investimento em infraestruturas críticas, como os cabos submarinos e a expansão da rede de fibra óptica, tem sido o alicerce para uma digitalização mais robusta. No entanto, o grande salto agora é a transformação digital dos processos, tanto no sector público como no privado, e a criação de um ecossistema que suporte o crescimento das startups e a modernização das indústrias tradicionais. 2. Como Directora da Women in Tech Angola, quais são hoje os maiores desafios para aumentar a participação feminina no sector tecnológico no país? Jaqueline Ngulo: O desafio é multifacetado. Primeiro, temos a questão da representatividade; as meninas precisam de ver mulheres em cargos de liderança técnica e engenharia para acreditarem que esse caminho é possível. Segundo, o acesso à formação especializada e mentoria. Muitas vezes, as mulheres entram no sector, mas enfrentam barreiras para progredir para cargos de decisão. Na Women in Tech Angola, focamos em quebrar estes estereótipos e em criar redes de apoio que garantam que o talento feminino não seja apenas incluído, mas que também permaneça e lidere no sector. 3. Que papel podem as empresas, universidades e o governo desempenhar para acelerar a inclusão digital e o desenvolvimento tecnológico em Angola? Jaqueline Ngulo: A aceleração exige uma tríade colaborativa. O Governo deve continuar a investir em infraestruturas e criar políticas de incentivo fiscal para a inovação. As Universidades precisam de alinhar os currículos académicos com as necessidades reais do mercado, priorizando o ensino prático e a investigação. Já as Empresas têm o papel fundamental de abrir portas através de programas de estágio, mentoria e investimento directo em talentos locais. A inclusão digital não é apenas sobre dar acesso à internet, mas sobre capacitar as pessoas para utilizarem a tecnologia como ferramenta de produtividade e desenvolvimento económico. 4. Que oportunidades vê para os jovens angolanos que desejam seguir carreira em tecnologia? Jaquelina Ngulo: As oportunidades são vastas, especialmente em áreas como cibersegurança, inteligência artificial e desenvolvimento de software. Com a crescente digitalização das empresas angolanas e do sector financeiro, a procura por especialistas técnicos nunca foi tão alta. Além disso, a tecnologia permite que o jovem angolano trabalhe para o mercado global sem sair de Luanda. O segredo está na aposta em soft skills, como a resiliência e a aprendizagem contínua, aliadas a uma base técnica sólida. 5. Como imagina o futuro do ecossistema tecnológico em Angola nos próximos anos? Jaqueline Ngulo: Imagino Angola a consolidar-se como um hub tecnológico regional na África Subsariana. Vejo um ecossistema mais maduro, onde a tecnologia é o motor da diversificação económica. Espero ver um aumento significativo de soluções “Made in Angola” que resolvam problemas locais — na agricultura, logística e educação — com potencial de exportação. Acima de tudo, prevejo um sector mais inclusivo, onde a inovação é impulsionada por uma força de trabalho diversa e altamente qualificada.



